Dia de Finados: como honrar quem partiu e aliviar o luto

Na segunda-feira, 02/11, é Dia de Finados. Para muita gente é só um feriado no meio do ano. Para quem perdeu alguém, é um dia que pesa desde a véspera. A saudade fica mais barulhenta, as lembranças aparecem do nada, e às vezes bate até uma culpa estranha por estar sentindo tanto, ou por estar sentindo pouco.
Se você está atravessando um luto, recente ou antigo, eu queria te fazer companhia nesta conversa. Sem pressa e sem fórmula pronta. Vou falar da origem da data, de como diferentes tradições honram quem partiu, do que o luto faz no corpo e na energia, e de gestos simples para viver esse dia com mais paz.
E desde já, um cuidado: se a dor estiver grande demais, se você sentir que não dá conta sozinha, procure ajuda. Um psicólogo, um grupo de apoio, uma pessoa de confiança. Se a tristeza vier com pensamentos de não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, ligação gratuita, ou pelo site cvv.org.br.
De onde vem o Dia de Finados
A tradição de reservar um dia para lembrar os mortos é antiga e aparece em muitas culturas. No Ocidente, a data de 2 de novembro ganhou força por volta do ano 1000, quando Santo Odilo, abade do mosteiro de Cluny, na França, instituiu uma celebração anual pelas almas de todos os fiéis falecidos, logo depois do Dia de Todos os Santos, em 1º de novembro.
Com o tempo, a data se espalhou pela Igreja e chegou ao Brasil com os portugueses. Hoje é feriado nacional, e é o dia em que os cemitérios brasileiros mais recebem visitas no ano.
Eu acho bonito pensar que, há mais de mil anos, pessoas de todas as gerações param no mesmo dia para lembrar quem veio antes. É uma corrente de memória que atravessa os séculos e chega até a sua família.
Cada fé honra quem partiu do seu jeito
Uma das coisas que eu mais aprendi nesses anos atendendo gente de todas as religiões é que o amor por quem partiu é o mesmo, e as formas de expressá-lo variam lindamente.
- Para muitos católicos, é dia de missa, de visitar o túmulo, levar flores, acender uma vela e rezar pelas almas.
- Para muitos espíritas, o foco está na prece e no envio de bons pensamentos, entendendo que o espírito continua sua jornada e recebe essa vibração de carinho.
- Para muitos evangélicos, a data costuma ser vivida como memória e gratidão pela vida de quem partiu, e como lembrança da esperança na ressurreição.
- Nas religiões de matriz africana, a relação com os ancestrais é parte viva do cotidiano, e honrar os antepassados é honrar a própria raiz.
- E para quem não tem religião, o dia pode ser simplesmente um momento de lembrar, agradecer e sentir.
Não existe jeito certo. Existe o seu jeito, aquele que faz sentido para o seu coração e respeita a sua fé.
O que o luto faz com a gente
O luto é a resposta natural a uma perda importante. E ele não segue uma linha reta. Tem dias em que você acha que já passou, e no dia seguinte uma música no supermercado te desmonta inteira.
Muita gente ouviu falar das “fases do luto”: negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação. Elas ajudam a nomear o que a gente sente, mas não acontecem em ordem nem com prazo. Você pode passar por todas na mesma tarde, ou ficar meses numa delas.
O luto também aparece no corpo: cansaço, sono desregulado, aperto no peito, falta de apetite ou fome sem fim, dificuldade de concentrar. É o corpo carregando o peso de um amor que ficou sem endereço.
Se depois de muitos meses a dor continua impedindo você de viver, de trabalhar, de se cuidar, vale buscar acompanhamento profissional. Pedir ajuda no luto é um ato de amor por você e por quem partiu.
O olhar energético sobre o luto
Agora eu vou trazer o olhar que eu estudo e ensino, sempre como complemento a todo cuidado emocional e psicológico.
Nos estudos sobre as frequências emocionais, a tristeza aparece como uma emoção natural e legítima. Ela precisa ser sentida. O cuidado está em observar quando ela se prolonga indefinidamente, porque permanecer muito tempo nessa frequência vai minando a energia vital.
No meu livro eu conto o caso de uma cliente, a quem dei o nome fictício de Laura. Ela perdeu o pai e a mãe durante a pandemia, quase ao mesmo tempo. Mal teve tempo de viver esse luto e ainda perdeu o emprego. Confinada em casa, sem perspectiva, foi afundando num processo depressivo. Laura precisou de acolhimento da rede de apoio e de apoio terapêutico para atravessar aquele período. E atravessou.
Eu trago a história dela porque muitas mulheres que me escrevem viveram perdas parecidas e acham que deveriam “já ter superado”. Não existe deveria no luto. Existe cuidado, um dia de cada vez.
Da minha prática
Quase metade das fichas dos meus atendimentos registra a partida de alguém próximo: pai, mãe, avós, um companheiro. E as lembranças do passado aparecem pedindo equilíbrio em 1 de cada 3 pessoas. Eu conto isso para você saber que não está sozinha. A saudade que pesa é uma das coisas que mais chegam até mim, e ela merece ser acolhida com o mesmo carinho que a gente dedica a quem partiu.
A morte como continuidade: um olhar que consola
Eu cresci numa família católica, fiz batismo, catequese e crisma. E depois de passar por um câncer, em 2016, mergulhei numa longa busca. Frequentei igrejas, centros espíritas, templos, terreiros, li muito, conversei com gente de muitas tradições.
Dessa busca nasceu uma compreensão que me consola muito e que eu compartilho com todo o respeito à sua fé: nós somos seres espirituais vivendo uma experiência humana, e não um corpo que carrega uma alma. A experiência humana é passageira. A essência continua.
Há uma frase do Evangelho de João que eu gosto de lembrar nesse contexto: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Cada tradição lê essa frase de um jeito, e todas elas, de alguma forma, apontam para a mesma esperança: quem partiu segue existindo, em outra morada.
Quando a gente olha por esse ângulo, a morte ganha o desenho de uma passagem. A saudade continua, claro, porque ela é o tamanho do amor. Mas o medo costuma diminuir. E com menos medo, a gente consegue lembrar de quem partiu com mais gratidão e menos desespero.
Se a sua fé enxerga a morte de outro jeito, tudo bem. Fique com o que te traz paz.
Quando a relação com quem partiu era difícil
Nem todo luto é por alguém com quem a gente se dava bem. Às vezes quem partiu foi um pai ausente, uma mãe dura, um ex-marido com quem as coisas terminaram mal. E aí o luto vem misturado: tristeza, raiva, alívio, culpa, tudo junto.
Isso é muito mais comum do que se fala. E você tem todo o direito de sentir tudo isso sem se julgar. No Dia de Finados, você não precisa fingir uma saudade que não sente. Pode simplesmente reconhecer a história, com o que ela teve de difícil, e pedir para si mesma a paz que a relação não trouxe em vida.
Ancestralidade: somos continuação de quem veio antes
O Dia de Finados também é um bom momento para pensar em ancestralidade. Você carrega no corpo, no jeito, nos gostos e até nas manias, um pouco de cada pessoa que veio antes de você. A receita de bolo da avó, o jeito de rir do pai, a força da bisavó que criou nove filhos sozinha.
E carrega também alguns padrões que talvez não queira mais repetir. No livro eu conto a história de uma mulher que chamei de Camila. Ela nasceu numa família em que todas as mulheres se anularam para dar aos maridos a realização profissional. Camila foi criada para ser dona de casa, aprendeu a cozinhar, a costurar, teve aula de etiqueta. Mas o coração dela pulsava pela carreira jurídica. Contra a vontade dos pais, reuniu coragem, saiu de casa, estudou em outra cidade e foi atrás do sonho de usar uma toga.
Honrar os ancestrais inclui as duas coisas: agradecer o que eles deixaram de bom e ter coragem de transformar o que pesou. Uma não desrespeita a outra. Muitas vezes, quebrar um ciclo é a maior homenagem que a gente pode fazer a quem não teve a chance de quebrá-lo.
Seis gestos para viver o Dia de Finados com mais paz
- Acenda uma vela com intenção. Em casa ou no cemitério, se fizer parte da sua fé. Diga o nome da pessoa em voz baixa e uma frase de gratidão.
- Escreva uma carta. Para quem partiu, contando o que você não teve tempo de dizer, ou o que aconteceu na sua vida desde então. Pode guardar, queimar com cuidado ou enterrar num vaso de planta.
- Cozinhe a receita de alguém. Fazer o bolo da avó ou o feijão do pai é uma das formas mais vivas de memória que eu conheço.
- Olhe fotos com alguém que também amava essa pessoa. Contar histórias juntos alivia. E muitas vezes a gente ri no meio do choro, o que é um presente.
- Faça uma prece ou uma meditação. Do jeito da sua fé. Envie à pessoa um pensamento de carinho e de liberdade.
- Cuide de você no fim do dia. Banho quente, comida leve, cama cedo. O corpo trabalhou muito sentindo.
Uma prática de respiração para a saudade
Quando a saudade apertar, experimente isto. Leva três minutos:
- Sente-se com os pés no chão e uma mão sobre o peito.
- Inspire devagar pelo nariz, pensando no nome da pessoa.
- Segure o ar por dois segundos, lembrando de um momento bom que vocês viveram.
- Solte o ar devagar pela boca, pensando: “eu te agradeço e te deixo seguir”.
- Repita cinco vezes. Depois fique um minuto em silêncio, sentindo o coração.
Essa respiração trabalha o chakra cardíaco, o centro de energia do peito, que cuida do amor por nós e pelos outros. Amar também é deixar ir, quando chega a hora. Se quiser conhecer os outros chakras, escrevi sobre os sinais de chakras desalinhados.
E a culpa, o que fazer com ela?
A culpa é companheira frequente do luto. “Eu devia ter ido visitar mais.” “Eu devia ter percebido antes.” “Eu fui dura naquela última conversa.”
Se isso está te acompanhando, eu te convido a fazer uma pergunta honesta: com o que você sabia naquele momento, com o cansaço e as condições que tinha, você fez o que conseguiu? Quase sempre a resposta é sim.
O perdão, inclusive a si mesma, é um dos movimentos mais curativos para quem fica. Escrevi um artigo inteiro sobre o poder do perdão para soltar mágoas que pesam, e ele vale também para as mágoas que a gente guarda contra si.
Como conversar sobre a morte com a família
Finados também é uma boa oportunidade para uma conversa que quase toda família adia: falar sobre a morte com naturalidade.
Não precisa ser pesado. Pode começar com uma lembrança: “você lembra do vovô fazendo churrasco?”. Pode ser sobre desejos práticos: como cada um gostaria de ser lembrado, que músicas, que cerimônia. Pode ser sobre fé: o que cada um acredita que acontece depois.
Conversas assim tiram o assunto da sombra. E famílias que falam sobre a morte costumam atravessar as perdas com menos brigas e menos culpa.
Perguntas que sempre aparecem
É obrigatório ir ao cemitério no Dia de Finados? Não. Se for importante para você, vá. Se não conseguir, ou se não fizer parte da sua fé, você pode honrar quem partiu em casa, do seu jeito.
Quanto tempo dura o luto? Não existe prazo. A dor costuma mudar de forma com o tempo, ficando menos aguda. Se ela continua impedindo você de viver depois de muitos meses, procure apoio profissional.
Posso sentir alívio quando alguém que estava doente parte? Pode, e isso não diminui o seu amor. O alívio é pelo fim do sofrimento, de quem partiu e de quem cuidava.
Como ajudar uma amiga enlutada? Esteja presente, ouça mais do que fale, ofereça ajuda prática, como levar uma comida ou resolver uma pendência. E lembre dela depois que todo mundo esqueceu, no aniversário da perda, por exemplo.
O que eu queria que você levasse daqui
O Dia de Finados pode ser um dia de dor, e também pode ser um dia de amor. As duas coisas cabem juntas. Quem partiu continua presente nas histórias que você conta, nas receitas que você faz, no jeito como você cuida das pessoas.
Me conta, se quiser: quem você vai lembrar nesta segunda-feira?
No meu livro Seres Energéticos, num capítulo chamado “A vida é mesmo uma só?”, eu conto como a perda e a doença me fizeram buscar respostas sobre o que existe além desta vida, e o que eu encontrei olhando para muitas tradições ao mesmo tempo. Se quiser ler completo, o livro físico vai com frete grátis para todo o Brasil.
E se quiser companhia nesses dias, eu posto todos os dias um cuidado com a energia e com as emoções lá no Instagram @viaenergia. Você é muito bem-vinda por lá.


